Posta a proposta, aceite o rascunho, passámos à execução.
Trocamos o país.
Trocamos o
destino: de cidade interior pitoresca, passamos para uma vila junto ao mar.
Trocamos o
alojamento: de quarto rústico por uma casinha pré-fabricada num parque de
campismo.
Trocamos os
jantares: substituímos a luz das velas por uma conversa debaixo de um céu
estrelado.
Trocamos as
tardes: a água tépida das termas, pelo mar revolto do Atlântico.
Trocamos a banda
sonora pelo silêncio...
De repente, ao teu
lado, estou confortável no silêncio. Estou em paz, ouço as ondas rebentar,
sinto o frio húmido e chego-me a ti. Encostas a cabeça ao meu peito e deixo-te
adormecer. Há duas horas não te conhecia e agora trazes-me conforto e
serenidade. Procuro uma estrela cadente enquanto te sinto a relaxar, cada vez
mais entregue a mim. A estranheza passou mas o céu continua a distrair-me. Não
me recordo de estar debaixo de tantas estrelas. Parece que não consigo
acreditar no que estou a ver. No que estou a sentir.
A realidade é que
passei os últimos dias a evitar pensar em ti. A fugir da realidade e a
deixar-me ir. Como é que é possível que no meio da minha loucura tenha
encontrado alguém tão louco como eu?! A dúvida percorre-me. Desconfiado que
sou, imaginei mil defeitos. Não era possível. Não podias ser normal.
Passaram-se os
dias e a aventura começou a ganhar forma. Escolhemos o destino, marcámos o
alojamento e decidimos quando nos iríamos finalmente encontrar.
Eu sabia que iria,
fui eu quem marcou o nosso abrigo, quanto mais não fosse pelo prejuízo
monetário, estava implícito que eu compareceria ao nosso encontro. Eu sabia
também que iria um dia antes de ti. Ia ter mais uma noite, uma noite sozinho,
para perceber exactamente o que estava a fazer, talvez para entrar no
"espírito de loucura"... Eu tinha esta certeza: eu vou. Tudo o resto
era para mim incerto.
Deixei Coimbra
depois de muito engonhar. Fiz as malas lentamente, tomei banho sem pressas,
aparei a barba ao detalhe. Não que achasse que isso fosse importar, mas de
alguma forma estava a ganhar forças para partir. Inventei algumas desculpas
para quem foi necessário e lá fui...
Os que sabiam
exactamente ao que ia, parece-me a mim, estavam tão incrédulos quanto eu.
Gabaram-me a coragem. Gabaram-me a sorte. Gabaram-me a loucura...
Fui...
"Ansioso como uma criança que vai numa viagem de estudo"...
Cheguei,
acomodei-me e comecei imediatamente a gostar de tudo. O parque onde ficámos
está entalado entre rio e mar, no meio de um pinhal denso. A paisagem é de
cortar a respiração. A praia com o forte da Ínsua plantado numa ilha em frente
e o monte de Santa Tecla, logo ali ao lado, no teu país, do lado de lá do
Minho.
Fui brindado com
um pôr-do-sol magnífico e ao jantar tu informas-me que afinal vens ainda hoje.
Daí a duas horas já estarias ao meu lado. Compraste o vinho (que não te
paguei...) e lá te esperei...
...
O nervoso miudinho
deixa de o ser... Quando finalmente chegaste, quando finalmente te vi, quando
finalmente chegou o fim da espera... Ali estavas tu. À porta do parque, com
dois braços e duas pernas, dois olhos e dois ouvidos, cinco dedos em cada mão,
cinco dedos em cada pé... malas nas mãos, à minha espera. Normal.
Dirigimos-nos para
a praia, conversámos, bebemos vinho, conversámos mais um pouco, bebemos mais
vinho... És normal. Mais do que isso: és encantador. A tua pronúncia carregada,
o teu olhar sereno, o cabelo a cair-te na face… Beijaste-me… Beijamos-nos e abraçamos-nos.
O frio estava a tornar-se insuportável e o cansaço já se apoderava
de ambos.
Fomos para casa e dormimos abraçados.
Na manhã seguinte beijámos-nos outra vez e envolvemos-nos perdidamente.
Toda a cabana ressoava calor, do chão ao tecto…
Neste preciso momento questiono-me: porque escrevo isto?! Vou-te
mostrar? Quero-te mostrar? Não sei as respostas para estas questões… Mas talvez
queira apenas registar. Já tentei escrever ficção, mas é tão mais fácil
escrever sobre o que me vai na alma.
Já ontem tinha começado a escrever, mas estava “perro”, as
palavras não saiam... Hoje sinto-me a discorrer...
Tomámos o pequeno almoço na praça, a intimidade cresce, a distância encurta-se. Vamos para a praia. Em moledo dizes-me ao ouvido que não gostas de estar ali: "aqui não te posso agarrar e beijar-te"... A tarde passa, o conforto cresce e a paz instala-se. O silêncio entre as conversas, o sol a queimar, o mar a subir... Vamos mais cedo do que o planeado para casa, a tesão é grande demais. Envolvemos-nos cheios de areia... Suados, cúmplices, apaixonados... Dou por mim a olhar-te. A perceber o que está a acontecer. Olho-te nos olhos. Vou tomar banho de água fria...
Corremos para partilhar o pôr-do-sol. Ainda vislumbramos o fim... Ficou o céu... o vermelho, o rosa, o lilás, o roxo e o azul infinito... o rio a reflectir este enorme espectáculo e Espanha a completar o cenário. Fotos para mais tarde recordar. Jantámos e novamente adormeço ao teu colo, sem preocupações...
O último dia chegou. Desperto lentamente, sinto-te beijar-me o pescoço. Envolvemos-nos outra vez... Adormeço... Volto a acordar, volto a sentir-te. Volto a ter-te em mim... Atrasados, apressamos-nos a arrumar tudo e deixamos o nosso poiso...
Depois de almoçarmos passámos a tarde inteira na praia, desta vez numa intimidade e cumplicidade à vista de todos. Sinto que me agarrei a tudo o que tinha para agarrar. Não queria olhar o relógio... Não queria projectar o futuro, os medos, os receios...
Tinha-te dito qual seria a receita para me apaixonar por ti. Tu, conscientemente ou não, superaste a receita mil vezes e agora esperas o quê!? que volte para casa e esqueça que tudo aconteceu?! que faça de conta que não mexeste comigo?! que não te procure mais?!
E tu?! o que sentes tu?!
É a hora de ser racional... mas eu não sei ser racional... não sei fazer de conta que isto não mexeu comigo.
Sim, continuo sem te conhecer. Mas sim, tenho 10 vezes mais vontade o fazer.
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