terça-feira, 22 de maio de 2012

CARTA

Penso em ti!

Penso nas nossas brincadeiras, corridas, gargalhadas, gritos, confidências...
Nas casas construídas sobre colmeias,
Nos saltos, cada vez mais altos, para cada vez menos água.
No óleo dos matrecos quando nos mascarámos de pretos,
Na lama, na chuva e nos passeios de bicicleta.

Penso nas torradas com manteiga e nos iogurtes,
Penso nas ameixas amarelas,
Nas idas à fonte,
Nas aventuras em busca do musgo,
No Natal, na Páscoa, no Verão

Penso na digestão...

Penso no Conan e no Cyborg,
Penso nas lutas dos heróis, em que eu era o He-man e tu o Conan,
Penso nas cruzes feitas espadas,
Penso nas canas feitas espadas,
Penso na espada.

Penso na Ice, na Esperta e na Princesa,
Penso no tanque! no saltar da prancha, do corrimão da prancha e do telhado do alpendre,
Penso nas bombas, nas molas, no nadar debaixo de água,

Penso...

Penso que caíste com o tanque vazio ao passar por mim...
Penso no dente que perdeste no carrinhos de choque, aka tróleis,
Penso na febre da carraça...

Penso no cinto que ia sair das calças,
Nas corridas de pé descalço a fugir,
Nos esconderijos e nas cabanas.

Penso...

Penso que eras sempre O corajoso! O intimidado! O valente!
Mas foste o primeiro a ficar com medo do leão no meio do milho...

Penso nos patins em linha, nos berlindes, no futebol...

Penso no telefone a tocar já de noite,
Sei que estava a ver um filme com os meus pais,
Sei que a minha mãe atendeu no andar de baixo,
Sei que gritou,
Que o meu pai se levantou e foi a correr,
Que eu fiquei sentado à espera,
Que a minha irmã não estava em casa,
Que dormi com a Rosalina no quarto dos papás,
Que não vim ao Porto nesse dia nem no seguinte...

Penso na missa em que não percebia...
Na censura de um sorriso de uma criança,
Nas palavras cristãs de "conforto" que para sempre me revoltaram!

Já pensei muito mais, na realidade, penso em ti por medo de me esquecer de TI!

É triste. Foi triste! Foi horrível!
Fizeste falta! a mim e a todos os que te conheceram.

Pensei muito em ti! Sonhei muito contigo!
Juntos fomos ao cemitério vezes sem conta, ver uma campa que só conhecia por tu me levares até ela.
Fizeste-me sonhar acordado. Criança que era, baralhaste-me e fizeste-me acreditar.

Penso em ti, mas aprendi a viver sem ti!

Passaram muitos anos, tantos que preciso pensar, para saber quantos...

Eu cresci, nós crescemos, outros nasceram, outros morreram.

Foste O meu melhor amigo! Eras O meu herói! Eras O meu Orgulho!

Não eras só o meu primo, não era o sangue que nos unia!
Eras o Tiago, aquele que me dava forças, que me fazia acreditar que era capaz.

Muito tempo passou... hoje vivo ao pé de ti e nunca mais te fui visitar.
Não fui, nem vou, porque sei que morreste,
Porque sei que não estás no cemitério,
Porque sei que vives apenas nas nossas lembranças.

Amei-te! Talvez ainda te ame, acho que nunca te deixarei de amar...
Mas hoje acordei e pensei
Que mesmo com tantas memórias, elas vão-se desvanecendo,
E por isso escrevo-te! Para registar, para não esquecer!
Porque herói que foste! quero que saibam, que nunca deixas de o ser.



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